O QUE UMA MULHER QUER?

Observar as falas e os comportamentos das mulheres e se vê em meio a reflexões. Talvez, por eu própria ser mulher e, muito embora, sendo, restar cheia de incompreensões quanto a este universo indefinido e inconsistente. 

Freud declarou que, mesmo após trinta anos de atendimento clínico no qual escutava mulheres, não conseguiu desvendar o enigma: o que uma mulher quer? Ainda que pareça carecermos de respostas, tanto mais importante é a pergunta.

A pergunta que só aparentemente não foi respondida, pois Freud também disse: "a mulher não quer amar, ela quer ser amada." Frase que, de algum modo, parece "matar" a charada.

Simone de Beauvoir, a filósofa francesa que escreveu "O segundo sexo", obra em que se debruçou sobre a condição social, cultural, política e econômica das mulheres, se utilizou da expressão: "Não se nasce mulher, torna-se mulher." Desse "tornar-se" me valerei tanto para tecer, sob o ponto de vista psicanalítico, o que é ser mulher e o que uma mulher quer.

O princípio de onde devemos começar a dar os primeiros passos é no sentido de que o mundo sempre foi dominado e governado por homens. Foram eles que estabeleceram as bases para o funcionamento da sociedade, e creio que muitas vezes de modo impensado e inconsciente, movidos pelo próprio agir no mundo, quase como uma espécie de passagem ao ato.

Desse mesmo ponto partiu Simone de Beauvoir, ao realizar vasta pesquisa antes de escrever "O segundo sexo", obra em que demonstrou o papel secundário das mulheres na sociedade, a fim de identificar em que momento da história os homens passaram a exercer o domínio, se houve um acontecimento histórico específico, uma revolução ou qualquer outra coisa que marcasse esse fato. 

Ao final, a filósofa constatou que jamais fora de outra maneira. O comando do mundo sempre esteve nas mãos dos homens, quer por aspectos de ordem física, econômica, sexual ou quaisquer que sejam.

No que concerne à visão psicanalítica, teoria desenvolvida por Freud, e que tem como cerne o inconsciente e a sexualidade, vê-se, no homem, a presença de um órgão sexual externo e visível, o pênis ou falo que, na cultura, foi ganhando os contornos de uma representação ou símbolo de poder. Se o mundo foi construído e mantido por homens, algo eles devem possuir (e as mulheres não possuem) que seja sinônimo de força, poder e potência.

Ao estar diante de um homem e de uma mulher nus, é bem possível que pensemos em termos de: "ele tem"; "ela não tem". O órgão sexual da mulher, uma fenda, é sinalizado por uma espécie de corte. Aquilo que, na Psicanálise, remete à castração.

Se o homem tem e a mulher não tem, presume-se que ela é marcada por uma falta. E é a partir dessa "falta", que não é real, mas apenas simbólica, vez que somos atravessados pela linguagem e seus significados, que a situação da mulher será pensada.

A teoria da personalidade desenvolvida por Freud leva em conta fases sexuais a que a criança estará sujeita desde o momento do nascimento: oral, anal, fálica, latência e genital. É na fase fálica, entre três e seis anos de idade aproximadamente, que ela descobre os órgãos genitais e vivencia o Complexo de Édipo.

Inspirado do mito grego, o pai da Psicanálise teorizou o vínculo triangular em que o menino se enamora pela mãe e vê o pai como rival. Inicialmente, Freud acreditava que a menina se enamorava pelo pai. No entanto, teve de rever seu posicionamento e chegou à conclusão de que, também para a menina, o desejo repousa na mãe. 

Tem-se, portanto, que nosso primeiro objeto de amor, com quem gostaríamos de permanecer fundidos, carrega o rastro da impossibilidade, pois que para perdurar incidiria numa relação incestuosa, portanto proibida.

Na resolução do Édipo, caracterizada pela separação da mãe ou castração, o menino volta-se para o pai e com ele se identifica - os dois possuem o falo. No que diz respeito à menina, ela também se volta para o pai, mas com ele não se identifica - ele tem o falo, mas ela não tem. 

Há algo que permanece de fora na sua tentativa de identificação com o pai. Fica um resto, não passível de ser simbolizado e que escapa à tentativa da menina de se separar da mãe. Portanto, para a mulher, diante da sua falta de identificação com o falo, Freud reconheceu o mais-além-do-falo. Esse campo aberto e indefinido é que possibilitará a que a mulher torne-se como tal. Ela poderá criar conceitos e o próprio mundo, ora substitutos fálicos, homem, carreira e filhos, a exemplo, e outros que estão além disso. 

Diz a psicanalista Malvine Zalcberg: "Cada mulher deve criar sua maneira de ser mulher." Também afirma: "(...) a mulher mantém a liberdade, apurando sua criatividade: criatividade necessária para cada mulher constituir-se uma identificação feminina não assegurada por natureza, tal qual a do homem (identificação viril) recebida do pai."

Para Freud, o grande desafio que a menina terá de enfrentar ao longo da vida é o da separação com a mãe, se individualizar e se tornar uma mulher assentada no desejo próprio, diverso do desejo uma da outra. Essa equação não matemática, caso não resolvida, poderá comprometer o destino da mulher, vez que a filha tende a confundir o seu corpo, desejo e gozo com aqueles que lhes foram projetados ou sentidos como sendo os de sua mãe.

No processo de resolução do Édipo, em que a menina, ao tentar se separar da mãe, não encontra identificação com pai, ela tende a voltar-se para a mãe para que esta lhe dê a substância necessária à constituição de sua feminilidade. "A filha, enquanto mulher, espera mais substância de sua mãe do que de seu pai", título de um dos capítulos do livro "A relação mãe e filha", de Zalcberg.

No entanto, se a mãe não acolhe a feminilidade da filha, se a rejeita ou se não destina a ela o olhar de amor, aceitação e aprovação, é provável que a filha passará a vida empreendendo esforços e sofrimentos na busca desse olhar que lhe faltou para dar consistência ao seu ser. 

Quem sabe seja ainda esse olhar de aprovação da mãe que as mulheres buscam sob o manto dos disfarces possíveis!?

Quem sabe a busca por "corpos perfeitos" e a exposição desmedida desses corpos, o culto da aparência, o sentimento de inadequação e de que nunca são boas o suficiente sejam restos dessa tentativa de agradar o primeiro objeto de amor e de ser tudo para ele?

Não estou convencida de que é pelos homens ou para agradá-los, como causa, que a mulher empreende seus esforços. Freud não se enganou quando teorizou: "O amor de hoje é sempre a repetição do protótipo do primeiro amor infantil com a mãe. Amar é invariavelmente amar pela segunda vez."

O que a mulher quer é ser amada e aceita por essa mãe e, como consequência, por todos os outros. Basta ouvi-la naquilo que ela diz além das palavras.


Comentários

  1. Uma reflexão profunda,deve-se ter ,a respeito desse olhar para o primeiro amor da menina que é a mãe. Com certeza ajudara, a esse encontro com a mulher que você é e ainda sera que esta sendo contruida diariamente.

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